
Grupos conservadores americanos queriam que o seu livro de estreia, "Os Profetas", que foi lançado n...
EDUARDO MOURA
MIAMI, EUA, E SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Primeiro, ele ficou radiante quando ouviu a notícia. "Fiquei tipo 'uau'", diz o escritor nova-iorquino Robert Jones Jr. O motivo? Grupos conservadores americanos queriam que o seu livro de estreia, "Os Profetas", que foi lançado no Brasil pela editora Companhia das Letras, fosse banido de uma biblioteca pública nos Estados Unidos. "Isso me pôs na mesma categoria que Toni Morrison e James Baldwin", ele afirma.
Nos últimos dois anos, "O Olho Mais Azul", de Morrison, ganhadora do Nobel de Literatura de 1993, sofreu pelo menos 116 proibições em bibliotecas americanas, de acordo com um relatório da PEN America, organização que defende a liberdade de expressão na literatura.
Segundo a Associação Americana de Bibliotecas, a ALA, na sigla em inglês, o livro foi o sexto que mais sofreu tentativas de proibição no primeiro semestre deste ano. Baldwin, do celebrado "O Quarto de Giovanni", outro medalhão da literatura do país, também é habitué das listas de livros proibidos. "Essas pessoas escreveram algo tão revolucionário que as autoridades determinaram que não deveriam ser lidos", diz Jones Jr.
O deslumbre do autor estreante, porém, logo virou tristeza e raiva. Ele chegou à conclusão de que era "nojento, um absurdo, impensável, que autores como Baldwin e Morrison fossem proibidos em certos lugares". "Percebi que poderia haver um garoto no Texas ou na Flórida que talvez precisasse ler este livro para saber que não está sozinho, que não há nada de errado com ele -e ele não terá acesso a isso."
"Os Profetas" conta a história de dois jovens escravizados numa plantação no sul dos Estados Unidos, na década de 1830, que se apaixonam. O livro toca diretamente em questões como raça, sexualidade, gênero e religião. Hoje, em alguns estados americanos, essa é a receita perfeita para chamar a atenção de quem gosta de censurar livros.
De acordo com a ALA, "Os Profetas" foi um dos 63 títulos alvos de um pedido em massa de censura, no estado do Tennessee. A queixa coletiva contra eles era devido à representação de personagens LGBTQIA+. Na obra de Jones Jr, há sexo. Nada escandaloso, principalmente para brasileiros que leem nas escolas obras como "Menino de Engenho" ou "Gabriela, Cravo e Canela".
"Isaiah deslizou a língua, devagar e gentil, sobre o mamilo de Samuel, que ganhou vida em sua boca. Os dois gemeram", escreve o autor, por exemplo, num trecho da obra que entrou na mira da censura.
Segundo a PEN, houve ao todo, nos Estados Unidos, 10.046 casos de banimento de livros, o que afetou 4.231 títulos diferentes neste último ano letivo.
O estado da Flórida foi o que mais registrou proibições de livros, com 4.561 casos. Iowa vem em segundo lugar, com 3.671. Os banimentos são feitos pelos distritos escolares de forma autônoma, mas, a exemplo do caso da Flórida, há agora uma grande chancela presente na legislação estadual.
A organização analisou o conteúdo das obras banidas em dois ou mais distritos. Esse grupo contou com 1.091 títulos, cerca de um quarto do total. Destes, 57% tinham conteúdos relacionados a sexo, 44% incluíam personagens não brancos, enquanto 39% apresentavam personagens LGBTQIA+.
Os livros não chegam a ser proibidos de serem vendidos nas livrarias, mas são retirados de prateleiras de bibliotecas públicas ou de escolas. Os opositores argumentam que isso é uma forma de censura, já que dificulta o acesso a obras literárias, principalmente no caso de jovens de baixa renda e em situação de vulnerabilidade.
SER OU NÃO SER (CENSURADO)
Além de Toni Morrison e James Baldwin, muitos outros nomes de peso da literatura mundial tiveram alguns de seus títulos contestados por distritos escolares nos Estados Unidos. É o caso de Margaret Atwood, com "O Conto da Aia", "Os Testamentos" e outros que, ao todo, foram alvo de 125 proibições.
Stephen King teve pelo menos 74 títulos censurados em bibliotecas. George Orwell teve o clássico "1984" banido em uma dezena de distritos escolares em Iowa e na Flórida. "A Revolução dos Bichos" foi banido em dois. Maya Angelou foi alvo de pelo menos 43 pedidos de censura, quase todos visando "Eu Sei por que o Pássaro Canta na Gaiola".
Na seara das histórias em quadrinhos, foram proibidos em determinados distritos "Maus", de Art Spiegelman, "Persépolis", de Marjane Satrapi, e "Watchmen", de Alan Moore, além de uma graphic novel feita a partir de "O Estrangeiro", de Albert Camus, e outra a partir dos diários de Anne Frank.
Entre as publicações mais recentes, fizeram barulho as proibições de "Gênero Queer", de Maia Kobabe, "Este Livro É Gay", de Juno Dawson, "Flamer", de Mike Curato, e "Nem Todos os Meninos São Azuis", de George M. Johnson.
"Dezenove Minutos", de Jodi Picoult, foi o livro que mais sofreu proibições -em 98 distritos

Evento na ALRN percorreu pontos históricos de Natal, premiou servidores e arrecadou fundos para o Instituto Juvino Barreto.

Palestra gratuita na Assembleia Legislativa do RN discute democracia, autoritarismo e totalitarismo com o escritor e embaixador.

Unidade móvel amplia serviços de saúde bucal em áreas rurais e comunidades, começando com o Outubro Rosa.