
PEDRO MARTINS
LOS ANGELES, EUA (FOLHAPRESS) - As chamas que consomem Los Angeles se tornaram uma metáfora involuntária para uma ameaça que cerca Hollywood, símbolo máximo da cidade. Com a volta de Donald Trump à Casa Branca, nesta segunda-feira, as maiores estrelas do mundo, que declararam guerra a ele ao apoiar Kamala Harris, estão na mira do presidente e do Congresso, formado em sua maioria por conservadores.
Trump já escalou seu time para essa batalha -Jon Voight, Mel Gibson e Sylvester Stallone, que são conhecidos pelos machões que encarnaram nas telonas e estão entre os poucos atores do lado do presidente. "Eles serão meus enviados especiais a esse lugar muito importante, mas muito problemático, que é Hollywood", disse Trump. "Serão meus olhos e ouvidos lá, e eu farei o que sugerirem."
Mas a relação entre a classe artística e o republicano não será como em seu primeiro mandato. Se antes as estrelas respondiam ao que acontecia em Washington com discursos de ataque ao presidente, sobretudo nos palcos de premiações, desta vez elas já sinalizaram que devem ficar caladas.
Prova disso é o Globo de Ouro, que aconteceu no início do mês. Exceto por uma breve piada feita pela apresentadora Nikki Glaser, não houve menção a Trump na cerimônia, diferentemente do que aconteceu há oito anos, quando Meryl Streep fez uma série de críticas à sua primeira vitória nas urnas com um discurso de seis minutos. Aquela, disse a atriz, era uma reunião "dos segmentos mais vilanizados da sociedade americana", "a imprensa e os estrangeiros". No ano retrasado, ainda, a premiação exibiu um discurso do presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, sobre a invasão de seu país pela Rússia.
Nos bastidores, o último Globo de Ouro é visto como um indicativo não só de como serão o Oscar e outras premiações, mas da relação dos artistas com a política em geral -mesmo entre aqueles que doaram milhões de dólares aos democratas, participaram de seus comícios e fizeram campanha nas redes sociais.
O receio de fazer provocações a Trump, segundo especialistas ouvidos pela reportagem, é o de agravar a crise que castiga Hollywood desde a pandemia, um cenário diferente de 2016, quando Trump venceu pela primeira vez. Desde então, a bilheteria do cinema acumula uma queda de 42% na sua arrecadação anual pelo mundo. Antes, também não havia uma disputa por atenção tão acirrada entre os cinemas e as plataformas de streaming, enquanto hoje a alta concorrência entre elas próprias faz o vídeo sob demanda ser um negócio que, não raro, dá prejuízo.
Mais próxima do Vale do Silício, Hollywood está mais dependente do governo para enfrentar desafios como a regulação da inteligência artificial, pivô das greves dos atores e dos roteiristas no ano retrasado, e os mercados estrangeiros, entre eles o do Brasil, que agora representam uma ameaça com os esforços para proteger sua própria produção audiovisual.
Para ter o apoio de Washington, Los Angeles não só precisará evitar ataques ao presidente, mas se alinhar à sua pauta comportamental de viés conservador. Assim, o cinema feito nos Estados Unidos pode ficar mais careta e se fechar a histórias de imigrantes, negros e membros da comunidade LGBT, afirmam pessoas próximas à indústria, em condição de anonimato. Essa visão é amparada por pesquisas de mercado, às quais o New York Times teve acesso, dizendo que o público agora desliga a TV quando os atores começam a falar de política em premiações.
É um cenário parecido com o que tem acontecido na televisão brasileira desde a ascensão de Jair Bolsonaro, do PL, e seu discurso conservador. Se há uma década a Globo exibia atrizes do calibre de Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg se beijando na boca logo no primeiro capítulo de uma novela das nove, hoje a emissora vive sob acusações constantes de ter mandado cortar beijos e relacionamentos gays de suas histórias -o que seus executivos negam.
Isso já tem acontecido nos Estados Unidos, a exemplo de trabalhos mesmo de atores que são ativistas, como George Clooney. Seu último filme, "Lobos Solitários", com Brad Pitt, é uma ação sem nenhum matiz político, diferente das obras que fazia no passado, como "Boa Noite e Boa Sorte", de duas décadas atrás, que retratava o confronto entre um âncora de telejornal e um senador que caçava comunistas.
Esses atores, que têm tanto poder quanto os próprios estúdios, estão preocupados com a inteligência artificial. A classe artística saiu vencedora dos piquetes do ano retrasado, mas os acordos vencem no ano que vem, e tudo o que foi conquistado pode ser posto em xeque, com o avanço de ferramentas como o ChatGPT.
Hoje, os estúdios não podem usar inteligência artificial para escrever ou editar roteiros nem para pensar a ideia de uma história. Também é proibido treinar as máquinas com filmes do acervo. Mas essas empresas já têm permissão para reproduzir o corpo e a voz dos atores, dispensando suas diárias de trabalho, caso eles concordem e aceitem a oferta paga pelo uso de sua imagem.
Essa prática já é comum em Hollywood, a exemplo do longa-metragem "Aqui", que acaba de chegar aos cinemas e acompanha a trajetória de várias pessoas que habitaram uma mesma casa em diferentes momentos.
CULTURAIniciativa apresentada pela Casa de Cultura Gumercindo Saraiva garantirá incentivo às tradições populares e à valorização da ident…

Professores(as), gestores(as), técnicos(as) e demais profissionais da educação já podem se inscrever no Curso de Formação em Educa…
POLÍTICADecisão por unanimidade na Corte Eleitoral já foi publicada